segunda-feira, 4 de agosto de 2008

estética da expectativa

ou o banheiro do papa poderia ser melhor se você não dissesse que é ótimo


Se eu tivesse ido assistir O Banheiro do Papa sem maiores expectativa, apenas com aquela idéia de "vamos ver qual é", talvez tivesse saído do cinema estupefato e emocionadíssimo. Mas fui vê-lo condicionado por dezenas de recomendações e comentários dos mais positivos. Disseram-me que eu não poderia perder. E não perdi. O filme, mas sim a surpresa. Aliás, penso que a expectativa é um integrante fundamental da nossa recepção de obras de arte. Por exemplo, o que diríamos ao ler Ulisses e, sem sabermos tratar-se do colossal livro de Joyce, dissessem-nos que havia sido escrito por um jovem e esquisito escritor cachoeirinhense? O nome do autor, a indicação de conhecidos, as críticas publicadas na imprensa, tudo contribui para que comecemos a formar nossa opinião antes do contato com a obra. A própria obra às vezes condiciona ao nosso entendimento dela mesma. Fico pensando como seria ler – ou ver – Édipo Rei ou Macbeth sem saber nada a respeito. Deve ser uma sensação ímpar, que nunca teremos.

Voltando à vaca-fria, penso que a expectativa que criei em torno de O Banheiro do Papa arrefeceu um pouco o sentimento que tive em relação ao filme depois de vê-lo. Porém não ao ponto de não me fazer reconhecer que é um grande filme e de ver nele inúmeras qualidade. Como já se falou muito sobre a obra – tanto que condicionaram meu olhar – atenho-me a dois pontos que me pareceram muito interessantes.

Um deles diz respeito à complexidade das relações internas da família de Beto, o protagonista. Ele mora em um barraco com a mulher e a filha adolescente. A menina resiste a cumprir o destinos das mulheres daquele pequeno povoado fronteiriço do Uruguai e descarta fazer um curso de corte e costura, pois quer ir a Montevidéu fazer um curso de radialista. A mãe ganha alguns trocados lavando roupas e, quando o marido, muambeiro que atravessa a fronteira duas vezes por dia a bordo de uma bicicleta, sucumbe à fiscalização da fronteira, é ela quem sustenta o trio. Nesta pequena casa, as relação entre Beto, Carmem e a filha Silvia em curto espaço de tempo transitam entre o amor, a esperança e união para forjar um futuro um pouquinho melhor e a frustração, a incompreensão, o ódio e a violência. Este é um dos pontos altos da produção uruguaio-brasileira, pois poucos filmes conseguem urdir tão bem este entrelaçamento entre as vicissitudes da dimensão existencial humana e as contenções impostas pela realidade social.

Outro aspecto notável de O Banheiro do Papa é a desgraça de as pessoas terem de traírem seus próprios sentimentos e princípios em busca da sobrevivência. Ilustra isso a escolha de Beto – se é que podemos chamar escolha uma decisão em que as necessidades imediatas imperam sobre qualquer outra coisa – prestar serviços a Meleyo, o guarda da fronteira mais sacana e, por isso, odiado pela população de Melo. Era a única forma de obter recursos para a construção do banheiro a ser oferecido aos visitantes da cidade durante a visita do papa e que, nos planos de Beto, renderia muito dinheiro. Porém, a aliança com Meleyo representava uma traição ao povoado, à família, e a si próprio. Quando a filha descobre e conta à mãe, ambas se voltam contra o chefe da família que, sozinho e contrariado, não encontra forças para continuar no empreendimento salvador. Mas não se sabe – e certamente nem eles sabem – se é o amor, a compreensão, a esperança ou simplesmente a falta de outra possibilidade que os mantém sempre unidos e confiantes que o futuro será melhor. E será.


4 comentários:

Anônimo disse...

Post novo no blog: AMEI! Agora tô condicionada positivamente e na medida certa pelo teu olhar sobre o filme. Beijão, Joanna.
PS.: tu viu que tem um link pro teu blog no "para Francisco"?

Anônimo disse...

eu tinha ouvido só uma pessoa falar do filme antes e, pela pouca expectativa, curti bastante, principalemnte pelos pontos que tu apresentou tão bem!
beijo

Pequena disse...

delicadeza é fácil de encontrar. basta saber olhar. olha eu aqui, olha você lá.

beijo delicado.

Aline Duvoisin disse...

Será? Desculpa comentar um post velho, mas é que exatamente hoje estava pensando em escrever uma crítica sobre este filme. Permita-e um comentário... no início parece que vais citar algum aspecto negativo do filme ou simplesmente algum elemento que embase o fato de não teres gostado dele tanto quando o esperado por causo dos comentários positivos aos quais tivestes acesso anteriormente... Para mim, apesar de dizeres que o filme não pareceu tão bom quanto esperavas, ele ficou parecendo magnífico... e realmente é!!! ;)
ps: quando vamos no jogo do Inter?