segunda-feira, 21 de julho de 2008

trilha sonora

Desprestigiado após o advento do cinema falado, o velho Francisco fora-se embora de Mirada das Rochas. Depois de vinte e seis anos trabalhando como responsável pelo acompanhamento musical dos filmes no cinema municipal, ele era agora desnecessário para animar as tardes de domingo. Ninguém sabia seu paradeiro. Além das imagens em movimento, nas películas modernas era possível ouvir as conversas, as risadas, os choros, os tiros e os motores dos carros. O músico não entendia como aquelas pessoas se contentavam com tanta realidade, como conseguiam viver sem “aquela elevação da vida que só a música pode proporcionar”. “O que sobra para os espectadores imaginar”, perguntava a si próprio. “Nada.”

Planejou para a última sessão do ano, no dia 23 de dezembro, seu retorno triunfal à cidade. Faria, junto a seus amigos mais próximos, “todos músicos da maior qualidade”, um concerto defronte ao cinema. Mas um concerto tão grandioso, que seria impossível ouvir o som do filme. No dizer de Francisco, um presente aos moradores de Mirada das Rocas. Postou-se atrás de uma árvore na praça central e, tão logo iniciou a sessão, fez sinal aos músicos para que se aproximassem. No programa, constavam peças de Beethoven, Bach, Mozart, Brahms. Planejara tocar enquanto durasse a exibição do filme. Antes, porém, de terminar a música escolhida para abrir a apresentação, a Nona de Beethoven, a turba enfurecido saía pela porta do cinema em sua direção, arremessando-lhe impropérios, pedras, frutas e pipocas. Só quando Francisco conseguiu desvencilhar-se da confusão foi que percebeu que lhe haviam quebrado o arco do violino.

Um comentário:

André Mags disse...

A que filme a turba assistia? Hehe. 14 de fevereiro - 21 de julho. Enfim de volta, rapaz. Abs.