quarta-feira, 5 de setembro de 2007

um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua

Um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua. Em meio ao largo asfalto da avenida, seus restos jazem esmagados, quase irreconhecíveis, não fosse o rabo, inconfundível cauda comprida e fina de um rato que viveu se alimentando das nojeiras humanas. Um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua. E os carros seguem passando por cima do rato. Carros com gente séria, apressada, atrasada, alarmada. Carros com gente se escondendo em cigarros, telefones, óculos escuros. Gente se escondendo atrás da dissimulada seriedade. Gente correndo atrás de comida. Gente correndo atrás de gente. Em meio ao zumzumzum e ronronrom dos carros que passam sem elegância, apresentam-se as já secas vísceras do rato que foi atropelado ao tentar atravessar a rua. Talvez o autor do acidente nem saiba que o cometeu, mas eu sei que morreu um rato, porque vi os restos estraçalhados do que fora, há pouco, um rato. Se tinha filhos não sei. Sua idade, por onde andou, onde dormia são informações que ignoro. Só sei que um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua. Mas com tantas atrocidades por aí, pode dizer-me alguém, e enumerar com indignação a guerra, a fome, a aids, a violência, o meio ambiente em degradação. Porém, só o que me tirou do torpor ligeiro do dia-a-dia foi aquele rato que não teve sucesso na tentativa de chegar ao outro lado da rua. Que ia ele fazer no lado oposto é um mistério que nunca será revelado. Com o passar dos pneus, o tempo veloz não deixará nenhum vestígio daquele ser. Os carros seguirão passando, os senhores e senhoras continuarão passando, as crianças continuarão a brincar. Eu continuarei passando por ali e pode ser até que um dia este episódio se apague por completo da minha memória. Mas um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua.

6 comentários:

André Mags disse...

Cara, do caralho. Muito bom mesmo.

Anônimo disse...

que coisa nos leva a sempre querer atravessar algumna coisa?

Moyanna disse...

Pobre rato, apenas seguiu seu rumo.

Ane Gutterres disse...

saudades, car�ssimo.

Loly disse...

Esta crônica eu hávia visto no blog de Yerko, e ele havia me falado que era de sua autoria e tal...
Ela me chamou muuuita atenção!
As coisas passam tão despercebidas por nós hoje em dia, não é mesmo?
E acontece exatamente assim, como este rato...
"Se tinha filhos, eu não sei!"
E assim acontece...

Mais uma vez, lindissímo! =)
Hávia elogiado Yerko pela escolha, agora elogio o responsável por tão bela reflexão!
Abraços!

Anônimo disse...

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