sexta-feira, 12 de outubro de 2007

a morte de ivan ilitch

como escrevi outrora aqui, a idéia original do blogue não é postar citações alheias. na falta de tempo e daquilo que se chama abstratamente de inspiração, porém, um cumprimentozinho com chapéu alheio não é idéia desprezível. por isso, hoje cumprimento com o chapéu pesado e doloroso de Tolstói. trata-se de um trecho de "a morte de ivan ilitch" em que o personagem que dá nome à novela, conversa, por assim dizer, com uma voz interior, espirutual, a pouco tempo do inevitável fim de sua existência:

— Viver? Viver como? — perguntou a voz do espírito.
— Sim, viver como vivi antes: bem, agradavelmente.
— Como viveste antes, bem e agradavelmente? — perguntou a voz. E ele começou a examinar na imaginação os melhores momentos de sua vida agradável. Mas, fato, estranho, todos estes momentos melhores de uma vida agradável pareciam agora completamente diversos do que pareceram então. Tudo, exceto as primeiras recordações da infância. Lá, na infância, existia algo realmente agradável, e com que se poderia viver, se aquilo voltasse. Mas não existia mais o homem que tivera aquela experiência agradável: era como que a recordação sobre alguma outra pessoa.
E apenas começava aquilo que dera em resultado o seu eu atual, Ivan Ilitch, tudo o que parecia então ser alegria derretia-se aos seus olhos, transformando-se em algo desprezível e freqüentemente asqueroso.
E quanto mais longe da infância, quanto mais perto do presente, tanto mais insignificantes e duvidosas eram as alegrias. A começar pela faculdade de Direito. Ali ainda havia algo verdadeiramente bom: havia a alegria, a amizade, as esperanças. Mas, nos últimos anos, esses momentos bons já eram muito raros. Depois, no tempo do seu primeiro emprego, junto ao governador, surgiram de novo momentos bons: eram as recordações do amor a uma mulher. A seguir, tudo isso se baralhou, e sobravam ainda menos coisas boas. Adiante, ainda menos, e, quanto mais avançava, mais elas minguavam.
(León Tolstói. in: A Morte de Ivan Ilitch)

3 comentários:

André Mags disse...

Grande livro.

Ane Gutterres disse...

saudades

Nessita! disse...

esse livro é cheio de passagens brilhantes! :D