Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
Alberto Caeiro
Alberto Caeiro


Sabe aquele meu allstar vermelho que ficou na tua casa? Eu queria ele de volta. Não que eu ache que tu não vai devolvê-lo, mas é que, sabe, eu não costumo comprar muitos calçados, eu só tinha dois pares de tênis, e como o allstar vermelho está retido na tua casa, agora só tenho um, e pode chover. E tem outra: tu sabe que eu gosto daquele calçado, e eu ando pensando que eu deveria gostar mais de mim do que tenho gostado ultimamente, então achei que reaver o meu allstar vermelho podia ser um começo. E eu tenho andado tanto por aí mas parece que estou sempre indo para o lugar errado ou para o mesmo lugar ou então procurando algo que eu nem sei o que é. Talvez com meu allstar vermelho eu encontre um rumo ou ao menos meu caminho fique menos sem graça, porque às vezes mesmo quando a gente não sabe direito para onde está indo pode haver uma surpresa no caminho e esta surpresa pode ser boa mas não é o que tem acontecido. Mas para a surpresa ser boa a gente tem pelo menos que estar aberta a ela e para isso é preciso estar gostando de si mesmo. Quem sabe com meu velho allstar vermelho... Pensei que de repente tu pudesse me convidar pra ir à tua casa buscar meu allstar vermelho. Mas é claro que me vendo depois de tanto tempo tu me convidaria para entrar um pouquinho e eu titubearia um pouquinho mas aceitaria. E tu iria me oferecer uma cerveja e a gente ia conversar tanto e ia entender aquelas coisas do outro que ninguém entende. só a gente. Então a gente ia rir tanto e ia ser tão bom que eu iria embora tão embriagado, não só do álcool, que esqueceria do meu allstar. Daí eu iria te telefonar e antes de eu falar qualquer coisa tu diria já sei, esqueceu teu tênis aqui, pode voltar qualquer dia menos tal dia porque eu tenho uma reunião lá na ONG, quem sabe sábado, daí eu preparo uma janta para te esperar. E até sábado chegar eu não iria fazer nada direito, só esperando o grande dia e planejando o que te falar, mesmo sabendo que não adiantaria nada porque na hora eu nunca sei o que falar e acabo falando alguma bobagem ou então ficando quieto demais. Até que chegaria sábado e eu iria chegar cedo demais na tua casa e não entraria logo, ficaria andando pelo teu bairro até chegar a hora. E o jantar seria ótimo, e tantas bebidas tantas conversas tantas risadas que ficaria muito tarde. E tu diria que eu não precisava gastar em táxi, que passasse a noite na tua casa, assim ainda poderíamos assistir a um filme que tu alugou. Então tu faria para mim uma cama no chão ao lado da tua só que essa cama improvisada amanheceria intacta e nós apertados na tua cama de solteiro acordaríamos tão tarde e tão felizes que eu de novo esqueceria meu allstar vermelho, mas também, nem teria mais tanta urgência porque eu já estaria de novo gostando tanto de mim e também já não precisaria andar por aí sem rumo porque logo voltaria para junto de ti e me encontraria em teus braços como está perdido meu allstar vermelho na gaveta,entre os teus sapatos.


Se eu tivesse ido assistir O Banheiro do Papa sem maiores expectativa, apenas com aquela idéia de "vamos ver qual é", talvez tivesse saído do cinema estupefato e emocionadíssimo. Mas fui vê-lo condicionado por dezenas de recomendações e comentários dos mais positivos. Disseram-me que eu não poderia perder. E não perdi. O filme, mas sim a surpresa. Aliás, penso que a expectativa é um integrante fundamental da nossa recepção de obras de arte. Por exemplo, o que diríamos ao ler Ulisses e, sem sabermos tratar-se do colossal livro de Joyce, dissessem-nos que havia sido escrito por um jovem e esquisito escritor cachoeirinhense? O nome do autor, a indicação de conhecidos, as críticas publicadas na imprensa, tudo contribui para que comecemos a formar nossa opinião antes do contato com a obra. A própria obra às vezes condiciona ao nosso entendimento dela mesma. Fico pensando como seria ler – ou ver – Édipo Rei ou Macbeth sem saber nada a respeito. Deve ser uma sensação ímpar, que nunca teremos.
Voltando à vaca-fria, penso que a expectativa que criei em torno de O Banheiro do Papa arrefeceu um pouco o sentimento que tive em relação ao filme depois de vê-lo. Porém não ao ponto de não me fazer reconhecer que é um grande filme e de ver nele inúmeras qualidade. Como já se falou muito sobre a obra – tanto que condicionaram meu olhar – atenho-me a dois pontos que me pareceram muito interessantes.
Um deles diz respeito à complexidade das relações internas da família de Beto, o protagonista. Ele mora em um barraco com a mulher e a filha adolescente. A menina resiste a cumprir o destinos das mulheres daquele pequeno povoado fronteiriço do Uruguai e descarta fazer um curso de corte e costura, pois quer ir a Montevidéu fazer um curso de radialista. A mãe ganha alguns trocados lavando roupas e, quando o marido, muambeiro que atravessa a fronteira duas vezes por dia a bordo de uma bicicleta, sucumbe à fiscalização da fronteira, é ela quem sustenta o trio. Nesta pequena casa, as relação entre Beto, Carmem e a filha Silvia em curto espaço de tempo transitam entre o amor, a esperança e união para forjar um futuro um pouquinho melhor e a frustração, a incompreensão, o ódio e a violência. Este é um dos pontos altos da produção uruguaio-brasileira, pois poucos filmes conseguem urdir tão bem este entrelaçamento entre as vicissitudes da dimensão existencial humana e as contenções impostas pela realidade social.
Outro aspecto notável de O Banheiro do Papa é a desgraça de as pessoas terem de traírem seus próprios sentimentos e princípios em busca da sobrevivência. Ilustra isso a escolha de Beto – se é que podemos chamar escolha uma decisão em que as necessidades imediatas imperam sobre qualquer outra coisa – prestar serviços a Meleyo, o guarda da fronteira mais sacana e, por isso, odiado pela população de Melo. Era a única forma de obter recursos para a construção do banheiro a ser oferecido aos visitantes da cidade durante a visita do papa e que, nos planos de Beto, renderia muito dinheiro. Porém, a aliança com Meleyo representava uma traição ao povoado, à família, e a si próprio. Quando a filha descobre e conta à mãe, ambas se voltam contra o chefe da família que, sozinho e contrariado, não encontra forças para continuar no empreendimento salvador. Mas não se sabe – e certamente nem eles sabem – se é o amor, a compreensão, a esperança ou simplesmente a falta de outra possibilidade que os mantém sempre unidos e confiantes que o futuro será melhor. E será.
Eu estava tão feliz, apenas pela pequena delicadeza de me mandares um beijo, à distância. Depois de tantos dias de solidão, febre e envelhecimento, aquele teu gesto me restituiu o homem que eu não encontrava mais em mim, e em minha janela eu já conseguia ver estrelas e até uma ponta da lua. E me permitiu olhar não mais apenas para o passado, mas adiante. Restos de força recolhi pelos cantos da casa para refazer meu sorriso e meu olhar que iriam te receber com tamanho entusiasmo e aplacariam tudo o que não coubesse naquele abraço longo e sôfrego que eu antevia. Estava tão feliz e parecia definitivo, embora não ignorasse que a felicidade se leva muito tempo para construir e um instante para pôr abaixo. Como num golpe, as gigantes nuvens carregadas voltaram a espreitar meu desassossego. Mas guardei aquela tua pequena delicadeza que traduzi como prova de amor. Aquele beijo, à distância, guardei bem junto de mim. E é ele que docemente me desperta a cada manhã.


Diante do espelho, um ponto de interrogação. Ser não é tarefa fácil. Recordo o dia seguinte ao de minha formatura. Sim, eu era um graduado, com um diploma e direito a cela especial. No entanto, defronte ao espelho minha cara era a mesma. Ser o quê? Definir-se como? Ninguém é antes do reconhecimento do outro. Somos, portanto, o espelho do outro. E, à frente do espelho, somos o que queremos apresentar ao olhar do outro. Dificílimo, de fato, este esforço de ser.
Pois no espelho, tentando deixar de moldar para ver o que contém a moldura, vejo-me um pouco como um seguidor do mesmo anjo torto que exortou Drummond a "ser gauche na vida". Um homem que admite enxergar nu o rei que todos fingem ver com as mais belas vestes e que, às vezes, paga caro por isso. Alguém que não sabe ganhar dinheiro por se interessar mormente pelas coisas que, de tão grandes, são insignificantes. Um abraço, um olhar, um sorriso, um filme sem desfecho conclusivo. Um homem que aprendeu a ver na pequenez do cotidiano a grandeza que a maioria só vê em um Deus distante.
Creio-me um homem sem destino, mas com projetos; sem proteção, mas com amigos; com muitos amigos, mas solitário; com um coração alegre, mas não feliz. Um homem que entre os homens passa despercebido, uma fruta que o paladar estranha antes de sentir – quando sente – o sabor. Não assuste-se o leitor por tantas e tamanhas abstrações. É assim que driblo a dificuldade da autodefinição, como um espelho que, de tanto distorcer a imagem que reflete, acaba por revelar detalhes nunca percebidos antes.
É esse espelho distorcido que pretendo construir nos textos que escrevo. Um espelho jamais poderá ser o objeto que se encontra postado a sua frente. Tampouco poderá ser absoluta, isto é, ninguém consegue olhar um espelho sem enxergar-se nele refletido. Assim, penso, deve ser o bom texto literário, construído em conjunto com o leitor. O escritor precisa perceber que não se fabrica espelhos – nem textos – que não sejam para refletir quem lhe encara. Aonde desejo chegar, pergunta o leitor. Respondo: quem sou importa menos do que quem quero ser. Um fabricante de espelhos, eis o que me pretendo.