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quinta-feira, 14 de julho de 2011

noite de s. joão


Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Alberto Caeiro


Caía a tarde naquela sexta-feira de junho. Distraía-me com alguma leitura sonolenta na solidão do meu apartamento. Lançando o olhar a esmo para além da janela, notei que se festejava a noite de S. João em um prédio vizinho, a uns 100 ou 200 metros do meu, cujo terraço, onde se dava o folguedo, fica bem ao nível da minha janela. Alguns jovens, todos do sexo masculino, preparavam o ambiente a céu aberto, dispondo balões e bandeiras feitas com recortes de revistas e demais enfeites próprios das festas juninas. Vestiam-se, claro, a carater: camisa xadrez, chapéu de palha trançada.

Senti, mais com a imaginação que com o olfato, o cheiro do quentão que por certo era preparado por aqueles rapazes ávidos por uma alegria à toa. Uma leva mais forte, com uma boa quantidade de aguardente adicionada à mistura. Outra, para os menos beberrões, mais doce e com menor teor alcoólico. Imaginei o cardápio daquela celebração composto por pinhão, pipoca, rapadura e, enfim, o habitual em festas do mesmo tema.

O grupo não tardou a se multiplicar, na mesma proporção do volume produzido pela algazarra de suas vozes e risadas, permeada por uma música indistinta para a distância em que eu me encontrava da folia. Esses sons me chegavam confundindo-se uns aos outros, mesclando-se, como uma imagem de que, ao longe, não se distingue cada objeto separadamente, tornando-se para quem vê uma imprecisa massa disforme.

Senti uma pequena alegria por aqueles rapazes, lembrei-me de memoráveis festejos de que fiz parte no passado, e remoendo a memória, não vi chegando, dominadora, a inveja. É óbvio que só agora, com a frieza da análise e a ajuda da linguagem escrita, chamo de inveja aquilo que senti. Naquele momento, o crescente despeito pelo deleite alheio fora tratado por mim como uma legítima análise crítica daquele festim tão cafona, tão artificial, e tão fracassado.

Fracassado sim, ou alguém chamaria de bem-sucedida uma festa junina que não conte nem mesmo com uma fogueira? A euforia dos jovens que chegaram primeiro e tão entusiasticamente prepararam o ambiente não durou muito. O que se via depois era uma alegria forçada, pouco convincente, talvez porque, como pude notar, o número de convivas homens superasse o de mulheres na proporção de 3 ou 4 por uma. Para piorar, as poucas moças que compareceram digamos que não primavam pela beleza.

Na certa, os organizadores do evento contavam com um contingente muito maior de mulheres, dado o número de amigas que, apesar de garantir que estariam presentes, não deram o ar da graça. Algumas delas já estavam decididas a não comparecer desde quando confirmaram presença, outras o fizeram com a real intenção de participar do festejo, mas depois, acabaram desistindo, por terem arranjado outro entretenimento mais auspicioso ou mesmo por, pensando melhor, considerarem ridícula a coisa toda.

O fato é que a festa preparada para ser uma apoteose de diversão mixou quando ainda tentava engrenar. E mesmo da distância da minha janela pude notar a crescente onda de bocejos e muxoxos. Não sei se realmente vi ou metaforicamente imaginei, mas até a lua sumiu, vencida por alguma nuvem. Não demorou para o recolhimento total dos participantes daquela noite de S. João. E daquela festa sobrou um terraço com bandeirolas penduradas balançando para ninguém. Naquela noite, adormeci lentamente, envolvido por um silêncio absoluto, sem fogueiras, sem gargalhadas, sem baques de salto, sem grito casual de quem não sabe que eu existo.


Imagem: GUIGNARD, Alberto da Veiga. NOITE DE SÃO JOÃO, 1961, Série Paisagem Imaginante, Óleo/tela, 61 x 46 cm

segunda-feira, 27 de junho de 2011

o novo woody allen


“Pena de quem viu Paris à Meia-noite no fds. melhor q ver um novo woody allen é a expectativa de vê-lo sabendo q está num cinema perto de vc.”
Escrevi isso no Twitter na segunda-feira subsequente à sexta em que Meia-noite em Paris, o novo Woody Allen, entrou em cartaz em Porto Alegre. Na quinta-feira, uma semana após a estreia, finalmente assisti ao filme. A semana entre a estreia e a ida ao cinema é como um ritual sabático, excitante, de espera e expectativa.

Woody Allen faz um filme por ano, uma frequência quase ritualística também (segundo a Wikipedia, a última vez que o judeu nova-iorquino lançou dois trabalhos no mesmo ano foi há quase duas décadas, em 1992, quando foram paridos Neblinas e Sombras e Maridos e Esposas, e o último ano que não viu nascer uma obra de Allen foi 1974). Seus fãs aguardam a novidade com avidez, cada qual com seu ritual, individual ou em pequenos grupos.

O meu é esse, simples: assistir ao filme uma semana depois de sua estreia. Sete dias é tempo suficiente para deixar brotar aquela vontade, aquela curiosidade, aquela saudável impaciência e um certo temor de que o título saia de cartaz prematuramente. Como, aliás, já aconteceu comigo: o gostinho da expectativa de assistir a O Sonho de Cassandra se tornou amargo quando fiquei a ver navios, traído pela inexplicável curtíssima temporada de exibição. Daí fixar em exatos sete dias o período preparatório. Não é cabala, é precaução.

Outro temor que me vejo obrigado a enfrentar é o de alguém deselegantemente contar o final do filme ou algum detalhe importante, estragar uma piada, desfazer uma surpresa. É um risco considerável. Se bem que relativo, porque ninguém consegue fazer uma história do Woody Allen parecer tão divertida e saborosa a não ser o próprio. Além do mais, todo fã do Woody tem certeza de que sabe como ninguém ver um filme dele, desvelar suas nuanças, captar uma referência, compreender uma metáfora sub-reptícia e sacar uma piada interna, daquelas que só sendo muito íntimo do autor - condição que o fã confere a si próprio, sem cerimônias.

Não confundir esse expediente deplorável dos estraga-prazeres com comentários e críticas despretensiosas sobre o filme. Por exemplo: como as que se lê e ouve pela imprensa ou as dos amigos e conhecidos, coitados que ignoram a semana sabática de saborosa privação (e provação). São geralmente opiniões pessoais do tipo “gostei/não gostei”, incapazes de minar nosso interesse pelo filme, tampouco de adiantar ou postergar a data em que vamos deliciarmo-nos com ele, mas que atiçam nosso desejo no período da espera.

A maioria das considerações, seja o “gostei” ou o “não gostei”, é sucedida por sentenças como “é o mesmo Woody Allen de sempre” ou “é divertido, mas nada de novo”. Típicos de espectador comum (sim, os fãs se colocam acima do que consideram espectador comum). São asserções de quem, quando do lançamento de Match Point, não titubeou em vaticinar: “é o melhor Woody Allen”, quando na verdade se trata do menos Woody Allen dos Woody Allens. Esses comentários são saudáveis para aumentar nossa expectativa, e para reafirmarmos a nós mesmos, após ver o filme, que eles não entenderam.

Eles não sabem, por exemplo, que um Woody Allen não se explica completamente por si só, mas compõe o conjunto da obra, faz muito mais sentido se relacionado aos demais trabalhos de sua filmografia. Nem imaginam que a suposta mesmice ou repetição faz parte de uma marca registrada do autor, que criou seu próprio jeito de escrever, filmar, dirigir, dando liga a essa teia de filmes. Ignoram que com essa aparente carência de profundidade na construção das personagens, repetições de situações e tramas, limitação de recursos estilísticos, preguiça e falta de audácia para desafiar a gramática fílmica tradicional, o cineasta destila sua agridoce e singular visão da condição humana.

Alguém pode dizer, para justificar o ato precipitado de assistir ao filme logo na estreia, que a espera já ocorre desde o seu lançamento internacional. Mas não, essa espera por algo distante, ainda inacessível, é infinitamente menor do que a espera quando o objeto de desejo está ali, disponível, a poucos metros, a poucos minutos de ti. Às vezes, quando um filme estreia no Brasil, Woody já tem mais um ou dois filmes sendo rodados ou já exibidos no exterior. Mas o que nos assanha mesmo é o que já chegou.

Sobre Meia-noite em Paris? É um Woody Allen. Que mais dizer? Esperemos o próximo, The Bob Decameron, no ano que vem.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

sobre anjos e grilos e passarinhos

Assisti ao espetáculo Sobre Anjos e Grilos, uma homenagem-adaptação-recriação da obra do poeta Mario Quintana concebida, dirigida e interpretada por Deborah Finocchiaro, a atriz mais Mario Quintana do Rio Grande do Sul. Durante cerca de uma hora, a artista só sobre o palco praticamente nu – apenas com uma máquina de escrever e um pano sobre o qual são projetadas imagens alegóricas sobre o universo quintanesco – traduz para fora das páginas a essência poética deste que é considerado o maior poeta sul-riograndense. E o faz com desobediente fidelidade e parcimoniosa grandeza.

A nudez despojada e ultrajante do palco dá espaço à cuidadosa e exata iluminação que compõe o ritmo e o tom da peça, aliada às gravuras temáticas da artista plástica Zoravia Bettiol, estas alinhadas ao tom de singela loucura que caracteriza o poeta-tema do espetáculo. Envolta neste ambiente, Deborah trilha o percurso onírico-material de Mario Quintana, a um só tempo leve e fustigante, debochado e melancólico, metódico e anárquico.

À vontade no papel de porta-voz cênica do poeta coestaduano, Deborah sabe (sabe?) que ela, seu trabalho, sua trajetória, funde-se ao de Quintana, não por uma aproximação pré-concebida ou ainda pré-identificável, mas por uma questão que, forçosa, foge à intenção e mesmo à consciência do artista. Ambos construíram suas história neste confim do Brasil, longe dos holofotes da exposição e consagração midiática que confunde caricaturalmente artista e celebridade de coisa nenhuma.

Ambos, Deborah e Mario, ficaram. Fundiram-se à paisagem e ao cotidiano desta distante Porto Alegre ao ponto de muitas vezes não sabermos distinguir o que estes artistas revelam da cidade e o que através dela dizem de si próprios. E deste microcosmo às vezes tão pequeno, às vezes tão provinciano, às vezes tão mesmo, leram e cantaram o intangível universal.

Não sendo – pra minha vergonha e tristeza – um frequentador assíduo de teatro, fui tocado pela fina simplicidade do espetáculo, que teve o cuidado de sobretudo nisso aproximar-se de Quintana, o poeta pelo qual tive meu primeiro contato com a poesia. Aos cinco anos de idade, encasquetei com um pano de prato comemorativo aos 80 anos do poeta que minha mãe ganhara de brinde. Neste pano estava escrito o famoso poema “Todos esses que aí estão / Atravancando meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!”. Aquilo para mim não fazia qualquer sentido e eu me intrigava e não entendia como alguém podia chamar aquilo de poesia. De tanto ensimesmar com o enigma, aconteceu-me aquilo que se chama de experiência estética. Um pano de prato, um palco nu, Deborah nele, Quintana sobre a máquina de escrever, eu passarinho

Imagem: Zoravia Bettiol. Mario-Anjo Disfarçado de Homem. Série Trans-figurações de Quintana. Monotipia 2006

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

duas quedas

Esse meu amigo, o F... não interessa, omito o nome para evitar constrangimentos. Basta dizer que ele tinha dois grandes orgulhos, evocados ao infinito no vaidoso intuito da jactância. Eis que esse meu amigo perdera de uma só vez as duas razões que alimentavam sua imodéstia. Foi assim: gremista aferrado, ficara chateado com o título de campeão da América conquistado pelo Inter, arqui-rival que ele tanto detestava. Chateado, mas não preocupado, porque tinha certeza de que ao disputar o Mundial, o Colorado não só não conseguiria bater o supertime do Barcelona como seria humilhado ao tomar uma goleada da equipe catalã.
Era tamanha a convicção que acertou com um grupo de amigos, todos gremistas, de assistirem juntos ao embate futebolístico. Para tanto, combinaram de passar a noite pelos bares e, às oito e meia da manhã, horário que começaria a partida disputada no Japão iriam para a casa de um deles degustar a irreversível derrota colorada.
Acontece que a noite, assim como o futebol e as mulheres, gosta de desafiar a lógica e de pregar peças nos humanos incautos, e eis que a beleza arrebatadora de uma ex-colega de escola, que ele tanto desejara e jamais havia conquistado, arrancou o nosso protagonista da mesa de seus companheiros, desfalcando a corrente anticolorada. Ele não faria falta, argumentou com o grupo, pois o jogo eram favas contadas.
Despediu-se prometendo presença na festa do título do Barcelona e se embrenhou na libidinosa mata do desejo, cujo destino não muito tortuoso foi a residência da dama. Não entendeu porque o permanente desprezo da moça nos tempos de colégio transformou-se em desejo arrebatador, mas o que importava era que finalmente a tinha conquistado, e o sabor das conquistas é proporcional às dificuldades de alcançá-las.
Quando entraram, ardentes, no apartamento, o sol já raiava, o que significava que os atletas de Barcelona e Internacional já corriam pelo gramado oriental disputando a taça mais almejada pelos clubes de futebol ao redor da Terra. Mesmo com a excitação do jovem casal, arranjou um jeito de pedir à amante que ligasse o televisor, e em meio a beijos, sussurros e suores, tentava prestar atenção ao jogo.
Tanto a batalha dos gramados quanto a da cama se encaminhavam para o final apoteótico. A garota, desfigurada de prazer, gemia cada vez mais alto. Porém, súbito, a voz do narrador pareceu tomar o ambiente: “O Inter vai pro ataque, o Inter se manda. Olha o Iarley, vamos nessa, olha a chance. Abriu pela direita. Olha o gol, olha o gol, bateu, olha o gol, olha o gol, olha o gol, olha o gol, olha o gol, olha o gol. Gooooooooooollllllllllllllll. Éééééééééééé do IIIIIIIInteeeeeerrrrrr”.
A partir desse momento, ele não ouviu mais nada. E nem fez mais nada. Tentou concentrar-se na batalha da cama, mas essa também já estava perdida, e ruíram no mesmo instante os dois grandes orgulhos do meu amigo: o de que o Grêmio era o único gaúcho campeão mundial e o de nunca ter brochado. Logo, foi-se embora com uma despedida sem graça, derrotado em meio àquela manhã vermelha de domingo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Penelope Maria Elena Barcelona


Fui assistir Vicky Cristina Barcelona e pensei: vou escrever um texto sobre o filme para o blog. Só que eu estava lá, assistindo, e achando o filme uma chatice. Mas falar mal do Woody Allen é blasfêmia das mais cabeludas. Daí fiquei pensando o que eu poderia escrever. Eis que, lá pela metade da projeção, aparece a Penelope Cruz. E eu cá comigo: já sei o que botar no blog. Isso:

A Scarlett Johansson é bonita. Bonita mesmo. Mas a Penelope Cruz é infinitamente mais linda.

Ia escrever só isso. Mas não é que a partir do momento em que a espanhola entra em cena o filme começa a ficar legal? Começa a ficar mais Woody Allen. Maria Elena, a maluca com tendências suicidas interpretada por Penelope, é uma personagem tipicamente woodyalleniana. O cara foi buscar em uma personagem espanhola, vivida por uma atriz espanhola, um jeito de se encontrar consigo mesmo.
Impressionante como o velho nova-iorquino faz filmes tão parecidos e a gente não cansa, continua gostando igual. Vicky Cristina Barcelona saiu de Manhattan, a trilha sonora não é jazz, Woody Allen não atua, mas mesmo assim o filme tem a marca registrada de seu autor, aquilo que chamamos estilo, e que alguém classificou como a arte de plagiar a si próprio.
Dá-lhe Woody. Ainda bem que nem cogitei escrever algo de ruim sobre o filme.

domingo, 12 de outubro de 2008

allstar vermelho

Sabe aquele meu allstar vermelho que ficou na tua casa? Eu queria ele de volta. Não que eu ache que tu não vai devolvê-lo, mas é que, sabe, eu não costumo comprar muitos calçados, eu só tinha dois pares de tênis, e como o allstar vermelho está retido na tua casa, agora só tenho um, e pode chover. E tem outra: tu sabe que eu gosto daquele calçado, e eu ando pensando que eu deveria gostar mais de mim do que tenho gostado ultimamente, então achei que reaver o meu allstar vermelho podia ser um começo. E eu tenho andado tanto por aí mas parece que estou sempre indo para o lugar errado ou para o mesmo lugar ou então procurando algo que eu nem sei o que é. Talvez com meu allstar vermelho eu encontre um rumo ou ao menos meu caminho fique menos sem graça, porque às vezes mesmo quando a gente não sabe direito para onde está indo pode haver uma surpresa no caminho e esta surpresa pode ser boa mas não é o que tem acontecido. Mas para a surpresa ser boa a gente tem pelo menos que estar aberta a ela e para isso é preciso estar gostando de si mesmo. Quem sabe com meu velho allstar vermelho... Pensei que de repente tu pudesse me convidar pra ir à tua casa buscar meu allstar vermelho. Mas é claro que me vendo depois de tanto tempo tu me convidaria para entrar um pouquinho e eu titubearia um pouquinho mas aceitaria. E tu iria me oferecer uma cerveja e a gente ia conversar tanto e ia entender aquelas coisas do outro que ninguém entende. só a gente. Então a gente ia rir tanto e ia ser tão bom que eu iria embora tão embriagado, não só do álcool, que esqueceria do meu allstar. Daí eu iria te telefonar e antes de eu falar qualquer coisa tu diria já sei, esqueceu teu tênis aqui, pode voltar qualquer dia menos tal dia porque eu tenho uma reunião lá na ONG, quem sabe sábado, daí eu preparo uma janta para te esperar. E até sábado chegar eu não iria fazer nada direito, só esperando o grande dia e planejando o que te falar, mesmo sabendo que não adiantaria nada porque na hora eu nunca sei o que falar e acabo falando alguma bobagem ou então ficando quieto demais. Até que chegaria sábado e eu iria chegar cedo demais na tua casa e não entraria logo, ficaria andando pelo teu bairro até chegar a hora. E o jantar seria ótimo, e tantas bebidas tantas conversas tantas risadas que ficaria muito tarde. E tu diria que eu não precisava gastar em táxi, que passasse a noite na tua casa, assim ainda poderíamos assistir a um filme que tu alugou. Então tu faria para mim uma cama no chão ao lado da tua só que essa cama improvisada amanheceria intacta e nós apertados na tua cama de solteiro acordaríamos tão tarde e tão felizes que eu de novo esqueceria meu allstar vermelho, mas também, nem teria mais tanta urgência porque eu já estaria de novo gostando tanto de mim e também já não precisaria andar por aí sem rumo porque logo voltaria para junto de ti e me encontraria em teus braços como está perdido meu allstar vermelho na gaveta,entre os teus sapatos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

carta ao pé do ouvido

O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
Ferreira Gullar



Era uma tarde de segunda-feira. Estávamos no centro da cidade. Tantas pessoas andavam, corriam, cruzavam, suavam. Estávamos próximos à estação rodoviária. Tantas pessoas chegavam, partiam, tantas ficavam. Próximos ao porto, tantos barcos ancoravam, tantos erravam, alguns talvez naufragassem. Estávamos perto das lojas populares. Tantas pessoas vendiam, compravam, pechinchavam, enganavam. Estávamos perto do mercado público. Tantas pessoas buscavam o que comer, o que beber, tantas buscavam não lembrar. Estávamos próximos à Rua da Praia. Tantas pessoas roubavam, tantas pessoas ofereciam bugigangas, cacarecos. Na praça, uns trocavam dinheiro por companhia, uns ofereciam o corpo por dinheiro. Estávamos próximos ao viaduto. Carros corriam, expeliam fumaça, barulho. Mas naquele instante, naquele sôfrego, urgente instante, não havia gente, não havia barulho, não havia fumaça, não havia nada. Éramos nós unidos como se nunca nos houvéssemos perdidos. Era eu, era tu, e estávamos sem relógio, sem pressa, sem hora. Dançávamos na gravidade da lua (havia um calçadão de Copacabana na lua), andávamos à beira-mar, estávamos no pico do Everest, estávamos no cânion da Fortaleza, num chalé à beira da lagoa dos Patos, flutuávamos numa gôndola em Veneza, éramos juntos em Eldorado, em Atlântida, encontrávamo-nos em Montauk, abraçavamo-nos na Praça Vermelha, na Sierra Maestra sem perder a ternura, brincávamos na infância, no sítio do pica-pau amarelo, pisávamos a areia de Itapuã, visitávamos Pompéia, a Acrópole, a catedral de Notre Dame, o Himalaia, a Cordilheira dos Andes, a Chapada Diamantina, o Rio Sena, bebíamos chope em um bar de pescadores numa praia distante, subíamos uma escada para o céu, eu te levava pela mão a correr por campos de morango. Para sempre. Éramos, para sempre éramos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

estética da expectativa

ou o banheiro do papa poderia ser melhor se você não dissesse que é ótimo


Se eu tivesse ido assistir O Banheiro do Papa sem maiores expectativa, apenas com aquela idéia de "vamos ver qual é", talvez tivesse saído do cinema estupefato e emocionadíssimo. Mas fui vê-lo condicionado por dezenas de recomendações e comentários dos mais positivos. Disseram-me que eu não poderia perder. E não perdi. O filme, mas sim a surpresa. Aliás, penso que a expectativa é um integrante fundamental da nossa recepção de obras de arte. Por exemplo, o que diríamos ao ler Ulisses e, sem sabermos tratar-se do colossal livro de Joyce, dissessem-nos que havia sido escrito por um jovem e esquisito escritor cachoeirinhense? O nome do autor, a indicação de conhecidos, as críticas publicadas na imprensa, tudo contribui para que comecemos a formar nossa opinião antes do contato com a obra. A própria obra às vezes condiciona ao nosso entendimento dela mesma. Fico pensando como seria ler – ou ver – Édipo Rei ou Macbeth sem saber nada a respeito. Deve ser uma sensação ímpar, que nunca teremos.

Voltando à vaca-fria, penso que a expectativa que criei em torno de O Banheiro do Papa arrefeceu um pouco o sentimento que tive em relação ao filme depois de vê-lo. Porém não ao ponto de não me fazer reconhecer que é um grande filme e de ver nele inúmeras qualidade. Como já se falou muito sobre a obra – tanto que condicionaram meu olhar – atenho-me a dois pontos que me pareceram muito interessantes.

Um deles diz respeito à complexidade das relações internas da família de Beto, o protagonista. Ele mora em um barraco com a mulher e a filha adolescente. A menina resiste a cumprir o destinos das mulheres daquele pequeno povoado fronteiriço do Uruguai e descarta fazer um curso de corte e costura, pois quer ir a Montevidéu fazer um curso de radialista. A mãe ganha alguns trocados lavando roupas e, quando o marido, muambeiro que atravessa a fronteira duas vezes por dia a bordo de uma bicicleta, sucumbe à fiscalização da fronteira, é ela quem sustenta o trio. Nesta pequena casa, as relação entre Beto, Carmem e a filha Silvia em curto espaço de tempo transitam entre o amor, a esperança e união para forjar um futuro um pouquinho melhor e a frustração, a incompreensão, o ódio e a violência. Este é um dos pontos altos da produção uruguaio-brasileira, pois poucos filmes conseguem urdir tão bem este entrelaçamento entre as vicissitudes da dimensão existencial humana e as contenções impostas pela realidade social.

Outro aspecto notável de O Banheiro do Papa é a desgraça de as pessoas terem de traírem seus próprios sentimentos e princípios em busca da sobrevivência. Ilustra isso a escolha de Beto – se é que podemos chamar escolha uma decisão em que as necessidades imediatas imperam sobre qualquer outra coisa – prestar serviços a Meleyo, o guarda da fronteira mais sacana e, por isso, odiado pela população de Melo. Era a única forma de obter recursos para a construção do banheiro a ser oferecido aos visitantes da cidade durante a visita do papa e que, nos planos de Beto, renderia muito dinheiro. Porém, a aliança com Meleyo representava uma traição ao povoado, à família, e a si próprio. Quando a filha descobre e conta à mãe, ambas se voltam contra o chefe da família que, sozinho e contrariado, não encontra forças para continuar no empreendimento salvador. Mas não se sabe – e certamente nem eles sabem – se é o amor, a compreensão, a esperança ou simplesmente a falta de outra possibilidade que os mantém sempre unidos e confiantes que o futuro será melhor. E será.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

um beijo, à distância

Eu estava tão feliz, apenas pela pequena delicadeza de me mandares um beijo, à distância. Depois de tantos dias de solidão, febre e envelhecimento, aquele teu gesto me restituiu o homem que eu não encontrava mais em mim, e em minha janela eu já conseguia ver estrelas e até uma ponta da lua. E me permitiu olhar não mais apenas para o passado, mas adiante. Restos de força recolhi pelos cantos da casa para refazer meu sorriso e meu olhar que iriam te receber com tamanho entusiasmo e aplacariam tudo o que não coubesse naquele abraço longo e sôfrego que eu antevia. Estava tão feliz e parecia definitivo, embora não ignorasse que a felicidade se leva muito tempo para construir e um instante para pôr abaixo. Como num golpe, as gigantes nuvens carregadas voltaram a espreitar meu desassossego. Mas guardei aquela tua pequena delicadeza que traduzi como prova de amor. Aquele beijo, à distância, guardei bem junto de mim. E é ele que docemente me desperta a cada manhã.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua

Um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua. Em meio ao largo asfalto da avenida, seus restos jazem esmagados, quase irreconhecíveis, não fosse o rabo, inconfundível cauda comprida e fina de um rato que viveu se alimentando das nojeiras humanas. Um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua. E os carros seguem passando por cima do rato. Carros com gente séria, apressada, atrasada, alarmada. Carros com gente se escondendo em cigarros, telefones, óculos escuros. Gente se escondendo atrás da dissimulada seriedade. Gente correndo atrás de comida. Gente correndo atrás de gente. Em meio ao zumzumzum e ronronrom dos carros que passam sem elegância, apresentam-se as já secas vísceras do rato que foi atropelado ao tentar atravessar a rua. Talvez o autor do acidente nem saiba que o cometeu, mas eu sei que morreu um rato, porque vi os restos estraçalhados do que fora, há pouco, um rato. Se tinha filhos não sei. Sua idade, por onde andou, onde dormia são informações que ignoro. Só sei que um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua. Mas com tantas atrocidades por aí, pode dizer-me alguém, e enumerar com indignação a guerra, a fome, a aids, a violência, o meio ambiente em degradação. Porém, só o que me tirou do torpor ligeiro do dia-a-dia foi aquele rato que não teve sucesso na tentativa de chegar ao outro lado da rua. Que ia ele fazer no lado oposto é um mistério que nunca será revelado. Com o passar dos pneus, o tempo veloz não deixará nenhum vestígio daquele ser. Os carros seguirão passando, os senhores e senhoras continuarão passando, as crianças continuarão a brincar. Eu continuarei passando por ali e pode ser até que um dia este episódio se apague por completo da minha memória. Mas um rato foi atropelado ao tentar atravessar a rua.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

uuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhh........


A cordialidade do brasileiro só se manifesta quando não deveria, quando não é cordialidade, mas letargia, inércia, covardia, preguiça, servidão, egoísmo. O sentimento de nacionalidade é (mal) catalisado para o esporte. A cada medalha somos mais orgulhosos do Brasil, não por vontade própria, mas instados pelo Galvão Bueno.

Os jogos pan-americanos do Rio de Janeiro serviram ao extravasamento da idiotia e da bestialidade em que naufraga a nação. As vais despropositadas e infelizes que se viu em certas situações impróprias comprovam a constatação. Nada mais propício para mostrar o lado escuro da humanidade do que o anonimato proporcionado pela massa. Não sou o João, o Pedro, a Maria nem a Iracema, sou brasileiro, torcedor, sou o povo. Não me julguem, julguem a massa.

Em diversas ocasiões durante os jogos foi triste ver o público usar a força da coletividade para tão torpe manifestação. É claro que toda a torcida quer ver seu país no local mais alto do pódio – para usar o jargão dos narradores. Porém, ao menos nas provas individuais e que sobremodo exigem concentração, não é razoável que, no intuito de favorecer um atleta brasileiro, atrapalhe-se com vais a concentração de outro. Peguemos como exemplo a ginástica. Nas provas de salto, uma esportista cubana, sob os gritos desencorajadores da turba, perdeu a concentração e o equilíbrio, não conseguindo permanecer em pé após a manobra. Deleite da massa.

Em outra ocasião, a vaia foi ainda mais imprópria. As seleções brasileira e cubana de vôlei feminino protagonizaram talvez o jogo mais disputado da história deste esporte. Na disputa pela medalha de ouro, ambas as equipes se apresentaram maravilhosamente e eram dignas do título. No tiebreak, vitória apertadíssima da seleção da ilha caribenha, prata para o excelente time brasileiro.

Neste tipo de esporte, coletivo e de embate direto – diferente da ginástica, em que a classificação depende do cotejo das notas atribuídas à apresentação individual dos atletas – vaias à equipe adversária são perfeitamente justificáveis. Agora, na entrega das medalhas, as campeãs mereciam o aplauso e o reconhecimento por terem batido um adversário fortíssimo. O que ocorreu, entretanto, foi uma chuva de vaias com o objetivo de estragar a festa das cubanas. Lamentável. Deve ter sido a válvula que garante aos brasileiros a medalha da cordialidade frente ao fato de subirmos impassíveis ao pódio da desigualdade social.

domingo, 8 de julho de 2007

anotações para um improvável ensaio poético-filológico

Não sei por que, mas fiquei pensando nos dois significados da palavra presente. O momento presente seria um presente (de deus?)? Ou seria a palavra presente – no sentido de mimo, regalo – filha daquela que significa agora? Quem concede um presente teria a intenção de manter-se presente na ausência? Neste caso, não vale oferecer, por exemplo, um chocolate ou uma rosa, do que fica apenas a ausência. Aliás, uma flor, tão linda enquanto presente, murcha e morre, assemelhando-se mais à ausência que à presença. Em suma, à saudade, cacto no jardim das lembranças. Por outro lado, considerando que o tempo presente seja um presente de deus, existem momentos – aqueles em que se deseja que o passado volte a ser presente – que o presente é um presente de grego.

Observação de relevância nula: o verbo apresentar parecia dar-me uma solução, mas acabou por aprofundar a dúvida, pois pensei que ali estivesse a origem do substantivo presente (no sentido de mimo, regalo), estando este separado de presente no sentido de tempo. Mas me convenci de que apresentar significa tornar presente, trazer à presença... e voltei à estaca zero.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Escrevi o texto abaixo para a cadeira de Leitura e Produção Textual. Era para ser uma apresentação pessoal. A professora disse que não consegui me apresentar. Também acho. Mas como o texto é mais ou menos sobre isso, e também um pouco sobre a escrita, acho que tem tudo a ver publicar em um blogue recém-nascido. Então, ei-lo:


espelhos

Diante do espelho, um ponto de interrogação. Ser não é tarefa fácil. Recordo o dia seguinte ao de minha formatura. Sim, eu era um graduado, com um diploma e direito a cela especial. No entanto, defronte ao espelho minha cara era a mesma. Ser o quê? Definir-se como? Ninguém é antes do reconhecimento do outro. Somos, portanto, o espelho do outro. E, à frente do espelho, somos o que queremos apresentar ao olhar do outro. Dificílimo, de fato, este esforço de ser.

Pois no espelho, tentando deixar de moldar para ver o que contém a moldura, vejo-me um pouco como um seguidor do mesmo anjo torto que exortou Drummond a "ser gauche na vida". Um homem que admite enxergar nu o rei que todos fingem ver com as mais belas vestes e que, às vezes, paga caro por isso. Alguém que não sabe ganhar dinheiro por se interessar mormente pelas coisas que, de tão grandes, são insignificantes. Um abraço, um olhar, um sorriso, um filme sem desfecho conclusivo. Um homem que aprendeu a ver na pequenez do cotidiano a grandeza que a maioria só vê em um Deus distante.


Creio-me um homem sem destino, mas com projetos; sem proteção, mas com amigos; com muitos amigos, mas solitário; com um coração alegre, mas não feliz. Um homem que entre os homens passa despercebido, uma fruta que o paladar estranha antes de sentir – quando sente – o sabor. Não assuste-se o leitor por tantas e tamanhas abstrações. É assim que driblo a dificuldade da autodefinição, como um espelho que, de tanto distorcer a imagem que reflete, acaba por revelar detalhes nunca percebidos antes.


É esse espelho distorcido que pretendo construir nos textos que escrevo. Um espelho jamais poderá ser o objeto que se encontra postado a sua frente. Tampouco poderá ser absoluta, isto é, ninguém consegue olhar um espelho sem enxergar-se nele refletido. Assim, penso, deve ser o bom texto literário, construído em conjunto com o leitor. O escritor precisa perceber que não se fabrica espelhos – nem textos – que não sejam para refletir quem lhe encara. Aonde desejo chegar, pergunta o leitor. Respondo: quem sou importa menos do que quem quero ser. Um fabricante de espelhos, eis o que me pretendo.